Friday, September 7, 2007

Expresso Atlântico

A nostalgia é uma arma contra a inércia se for bem utilizada. As palavras beberam do tempo e tornaram-se mais maduras enquanto os caminhos eram percorridos. Enquanto o terreno fértil em sonhos era pisado de forma antagónica, as mentes caminhavam por cima do manto amarelo de árvores semi-nuas. As folhas caídas são a calçada destes pés frios. No rosto encontra-se os sinais dos últimos invernos. O jovial dá lugar à experiência e ao bom senso. Por dentro do rosto, a pessoa tornou-se mais jovem, menos razoável e cada vez mais insana no seu núcleo. Mais uma vez o paralelismo dos seres grita de razão e ri-se a plenos pulmões (se os tivesse). A calçada amarela converge com outra similar. O corpo sofreu algumas alterações naturais mas o sorriso relembra imediatamente quem é. O músculo vermelho atrás do esterno conservou-se grande e puro, como que se não tivesse data de validade. Os anos agora parecem poucos segundos, o filme estava em pausa e alguém carregou no botão com uma seta solitária no telecomando. Um mau símbolo para o momento produzido por um par, talvez o “fast-forward” fizesse mais jus agora, mas nenhum quer velocidade.






Carrega no botão de pausa, daqui a nada o filme acaba e eu quero relembrar este plano perfeito.

Thursday, September 6, 2007

Vinte e três

Há vinte e três anos ele tinha nascido para escrever estas imperfeições narrativas. Há vinte e três anos não existia esta mesa onde anoto aquilo que corre pela mente desviada em forma de rabiscos. Quando se nasce, somos um mar de esperanças e sonhos concentrados onde não cabe nem mais um pouco de molho agridoce. Os olhos de quem observa transformam-se naquilo que eram há dez, vinte, trinta anos, onde dizíamos fica para amanhã, hoje vou ficar por casa. Foi o que aconteceu a ela naquela malfadada noite quente de Agosto onde eu tinha nascido. O dia é o lote que alberga pessoas de todas as raças e credos. Partilho o dia quinze com desconhecidos que me parecem tão familiares aquando do sopro e eles também sopram e pensam o mesmo de mim.

Ela partiu naquela noite para nunca mais ver o dia, mal ela sabia do que estava para acontecer naquela ponte. O pior de perder alguém é aperceber-nos de como somos egoístas. Quero-te aqui! Maldita sejas por me privares da tua companhia, a tua partida é a minha também. Quero os momentos que estavam para vir de volta, quero a sensação de rotina e de enjoo que me davas todos os dias quando acordava. Até naquele dia que foi feito para celebrar o meu nascimento.

Soma um pouco de terror, infantilidade e amor, estás no bom caminho! O meu irmão avisou-me que isto ia acontecer. Estávamos a jantar à mesa da sala, com uma luz de presença que me lembrava o amarelado do cabelo dela. Nunca vi ninguém com aquela cor de cabelo, quando a conheci gozei com a cor de cabelo dela, chamei-lhe gema de ovo. Agora nem a clara sobra para contar a história que não se escreveu. O meu irmão comia aquele bife como se não houvesse mais bifes no mundo ou como quem quisesse explicar corporalmente o que se ia passar a seguir, como se fosse o último.

Prepara-te. Foi a única palavra que lhe saiu por entre os lábios que tinham grãos de arroz colados. O arroz saltou para o meu prato mas não ecoou na minha cabeça como o fez aquela palavra, cinco letras e um travessão despertavam o meu sexto sentido enquanto o cérebro fingia não ligar. É um ataque de hipocondria emocional pensava o cérebro, ingénuo o suficiente para não ligar aos sinais que estavam mesmo à sua frente. Até os hipocondríacos ficam doentes, afirmo agora com a experiência de uma cabeça desfeita pela arrogância.

Ela levantou-se naquela manhã abafada sem conseguir respirar e pediu-me um copo de água. Eu mandei-a à merda. Vai lá tu, eu tenho de ir trabalhar daqui a duas horas e tu acordas-me para eu ir buscar-te um copo de água? Vai à merda, aproveita que lá deve haver água!

Bateu com a porta e foi assim que deixou a casa que a viu crescer pela última vez. Nunca se deve deixar nada por dizer ou fazer. Viver com a amargura de um amor que nos deixa enquanto estamos zangados com ele por coisas triviais é a pior das maldições. Quando ela virou as costas para a cama e para o que restava de mim naquele dia só conseguia pensar como a amava. Nunca lhe disse o que realmente ela merecia ouvir e agora é tarde demais. Acho que escrevo aqui com a esperança tola da sua alma decifrar este arrependimento que por aqui vai. Um psicólogo diria que escrevo para racionalizar e auto perdoar-me. Eu escrevo porque escrevo o que nunca lhe disse.

Faz hoje vinte e três anos que os pais tiveram o segundo dia mais feliz das suas vidas, também nunca lhes disse o quanto eu gosto deles. A família é o único amor incondicional que encontramos na vida. Ainda estou a tempo de lhes dizer, mas não o faço com o medo de encontrar a criança que era. A que existia no interior partiu com ela naquela noite, ou talvez antes, quando se discutia por discutir.

A mãe dela tornou-se numa concha vazia. Sem rumo a seguir, sem companhia, sem ela. Quando soube, disse isto não é real, isto não é real, isto não é real, isto não é real. Por momentos acreditei e ri-me, depois apercebi-me que o sonho falecera essa noite. Falei com a mulher do cabelo amarelo à hora de almoço e discutimos mais. Lá parou o duelo de egos e combinou-se para as vinte e duas horas. Baixa e bairro alto. O roteiro habitual que não cansa porque há sempre caras novas. Fazia vinte e três anos que nascera do ventre da minha mãe. A tarde foi passada a pensar no quanto já tinha vivido e no que estava por vir. Fazer vinte e três anos não é o mesmo que fazer vinte e três anos há quinhentos anos volvidos. Para a esperança média de vida desta época, vinte e três anos não são nada, são um quarto de vida, três quartos de morte. Há quinhentos anos vinte e três anos de vida eram uma vida mas conseguia-se ser jovem e abraçar o futuro. Quinhentos anos depois, este número representa a inconsciência do ser humano enquanto regulador do seu habitat. Uma conjunção de factores permite-nos vivermos para lá dos cinquenta mas a evolução interior não acompanhou a física e material. Quando temos cinquenta anos não temos cinquenta anos, simplesmente não temos nada. Somos de um tempo que já não nos pertence.

Ela chegou uma hora atrasada porque ficou retida no trabalho, eu gritei mais com ela e a minha mão ganhou vida enquanto a esbofeteava. A outra era ordenada para parar mas algo não a moveu. Entrou no carro com os olhos molhados pela fúria que sentia e acelerou até se perder no horizonte de alcatrão. Senti-me estúpido e sozinho mas o orgulho logo veio ao de cima e relembrou a razão.

Já passa da meia-noite e do dia em que nasci há vinte e três anos. A ponte estava sombria com os vultos dos nomes que te chamei e com as marcas dos dedos na tua cara. Sem querer, meteste termo a isso quando saías cuspida pelo vidro da frente.






Foi assim que morreste nos últimos minutos do dia em que nasci.

Tuesday, September 4, 2007

Sou este partir, este ficar

A adição (sub)trai o interior

As contas de cabeça não são de fiar

O papel é muleta, é certeza

E eu sem tinta para lá escrever.


Os segredos são de quem os quiser guardar

Paro em Plutão e oiço esta máxima

Que hoje parece tão mínima, tão pequena

O sono sacia-se no meu cansaço.


As estradas estão desertas à hora de ponta

Caminho sob o alcatrão que outrora pisei

Os cheiros de infância desvanecem

Enquanto a insensibilidade adulta predomina.


São demasiadas feridas, demasiados estilhaços

Que se prendem ao ser e tornando-se uno

A arrogância dos filmes transforma-se em dor

Torna-se numa espécie de concepção mental.


Nunca vai acontecer

O filme não é realidade.

O sono apodera-se de tudo e peço ajuda violeta

Para ver
Para dar
Para estar
Para ter
Para ir
Para ouvir,
Para sorrir e entrar
Para rir
Para voltar
A tentar
Para sentir
E mudar
Para voltar a cair
Para me levantar
Para nunca mais tentar
Mentir

Para crescer
Para amar
Para ser
O lugar
Para viver
E gostar
De gostar
De viver
Para fugir
Para mostrar
Para dizer
Para ter paz
Para dormir
Para fingir acordar
Para ser
Derramar
Para nunca mais tentar
Mentir




Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã

Eu adianto-me e adormeço para não ver.




Não é medo

É apatia.

Casa

A música é cenário e remédio para o corpo e mente

Seja ela qual for, as cores variam consoante a melodia

O chão é desculpa para quem quer esquecer o porquê

Mas o vento leva os acordes sustenidos até nós.


A cabeça no chão intimida-me a pisar a calçada

Arrisco, não por fingir o ser confiante que muitas vezes não sou

Arrisco porque decorei os passos a dar até ao local proibido

É um tiro (no escuro) num quarto de paredes redondas.


A morte chama pelos que temem a vida


Muitos têm pressa de viver o tempo que não lhes pertence

Erro que leva-os a morrer de dentro para fora

As conchas que vemos na praia não passam de Homens solitários

Que perderam a oportunidade de conhecer o (eu) interior.


A multiplicação de constelações não me alivia o ser

Ele teima em imaginar mãos definidas pelo tempo

Enquanto o sonho perdurar, a vida é eterna

O dia do naufrágio entristece mas não atenua a grandeza.


A chuva tímida bate na pedra e não falta muito até perder a vergonha


A uma certa idade ficamos surdos para o mundo que grita por nós

O quarto torna-se claro e vemos os seus limites e as suas formas

Esquecemos a personalidade dos objectos que lá habitam

Acaba-se por descansar quando ainda tudo está por descobrir.


Dizem que sou optimista de feitio. Não concordo. A realidade é negra

Porque a pintamos assim. Eu tenho uma vasta palete de cores

À disposição. Não tenho problemas em emprestá-las a quem quiser

Quando acabar, compra-se mais.


Os decibéis aumentam progressivamente enquanto caminhamos


A vida é feita de salas que partilhamos com outras pessoas

A minha porta abriu-se e entraste. Estavas encharcada e a tremer

Prontamente levantei-me e envolvi-te em cobertores de algodão

Os madeiros da lareira estalam ferozmente com um (único) objectivo.


Agora que a chuva parou de bater no vidro embaciado

Estás livre para partir, ir para a casa onde alguém preocupado grita por ti

Pergunto-me se me vês quando olhas para mim ou a outro alguém

Convido-te a ficares se assim o desejares, se realmente me vires.






Anseio no meu cadeirão por outro dia de tempestade

Saturday, September 1, 2007

A viagem

A ressaca dos corpos dormentes deixa-o feliz e a pensar no que está para vir. Estas paredes que o envolvem são bebidas daquele cheiro, daquela presença que não se consegue abstrair. Quatro. Soma o chão que pisas e o tecto que miras, diz-me o resultado.


Encontro perguntas para as quais não existe uma resposta concreta.


O surrealismo rodeia o real que se pensava ser concreto e amanhã as formas transformam-se. Quadrados em Rectângulos, elipses em círculos perfeitos. Nada é aquilo que parece. Certezas? Só mesmo que não existem. Perguntas-te pelo significado destas palavras, eu respondo-te:


Um verbo não é definitivo, conseguimos tirar ilações diferentes do mesmo.


De todos os vermelhos que viu, foi com aquele com que engraçou, não por ser mais que os outros, não! A razão não se explica, sente-se. Sem promessas, sem esperanças, sem obrigações, sem ela. O amanhã nasce e o céu ilumina-se das cores que ouviram falar nos filmes.
O mundo roda e com ele todo o universo. Não há quem fique indiferente, e quem o fica, acaba sempre por desistir e sucumbir aos prazeres do facilitismo. O fascínio por estradas escuras e caminhos perdidos no tempo é-lhe inato no ser.


O céu repleto de baunilha grita “o doce nunca há-de ser tão doce sem conhecer o sabor do amargo”.


Há frases que ficam, citações de conhecidos (ou não) que tornam-nos em criaturas um pouco menos egocêntricas, menos más. A frase é o catalisador mas o percurso continua por percorrer. Quem diz frases, diz mundos. Ou até mesmo nada. Não é medo, receio ou outro sinónimo qualquer que move as roldanas de quem escreve. É o sentido, aquele que afirmam não existir. Dizem que não nos conhecemos até ao dia da nossa morte. Atiro essas demagogias à cara de quem as lança primeiro.


Conceito, teoria, acção e finalmente reacção.


Há caras que desconhecemos dentro de nós. Vêm à tona quando menos esperamos e eu não sou excepção. Sou mortal, por isso não sou excepção. Nem o quero ser. O céu é o mar de quem é ávido na imaginação. Levamos tanto de nós quando partimos, nunca deixamos o suficiente para lembrar. Bebemos as cores que pintámos na tela. Daqui até à nuvem que tapa o sol a distância varia consoante o tempo. Eu quero estar lá a combater a mais feroz das tempestades.




E tu?

Thursday, August 23, 2007

As mãos procuram, o cérebro domina

Escrevo porque padeço de anti-sonos.



Dentro de mim existe mal, existem vidas demasiado curtas para dormir. E eu aqui, à deriva na insónia de quem pode tê-las. Sempre olhei para outros com cobiça, com desejo de roubar a serenidade inerente ao ser. Hoje, percebo que tal coisa não existe nestes trilhos, apenas desespero enquanto se espera.


À espera de tudo, de nada.


No mundo espera-se por alguma coisa, o próprio mundo espera que o seu infinito acabe porventura. Sim, porque em solo fértil a abundância esconde a terra frágil que colheita a sua colheita. Ela é destruída pelo fruto da sua própria criação. Nós.


E nós?


Esperamos sem esperar que tudo isto acabe. Sabemos que somos mortais mas não nos lembramos disso. Fingimos que essas coisas só acontecem aos outros, aqueles que nada têm a haver connosco, porque se tiverem, é tudo muito triste, muito sóbrio, muito humano.


Há seres humanos iguais?


Dizem que não, que somos todos diferentes. Cada vez vejo mais vulgaridade, mais pão sem sal ou sal sem pão. Monotonia, moda, ser anti-moda porque é moda sê-lo. Hoje todos são anti-alguma coisa. Embora caia no risco de cair na contradição, eu sou anti-antis.


Nenhum sonho é demasiado grande.


Perdemo-nos dentro deles. Dos nossos universos pessoais, onde controlamos aquilo que não podemos controlar. O verbo controlar devia ser embrulhado em preservativos e atirado ao rio. Controlar só revela a nossa mesquinhez, o podre de quem cheira. Contudo eu controlo muita coisa e sou controlado por outras que me ultrapassam ou que viajam ao meu lado. É para isso que existem os perfumes. Para disfarçar a pessoa de dentro.


O sono continua a não gritar.


Como tu. Essa expressão diz-me talvez. Diz-me “favor não magoar” enquanto berra por chicotes e facas. Gosto, confesso que sim. A bipolaridade não é uma virtude minha, prefiro falar com os meus outros eus. Aqueles que habitam o meu ser. Por agora dormem, mas quem sabe, amanhã será um deles a escrever aqui. Aí eu estarei a dormir sossegado porque o optimismo é inerente cá dentro


Espero pelo raiar do dia.


Enquanto escrevo para mim observo que o amor com que nascemos transforma-se ao longo do tempo. O centro é agora uma diagonal constituída por diversos pontos. Com feitios e formas variadas. Para todos os gostos, mesmo para quem não nasceu com o dom do paladar. O maior defeito do Homem é deixar de dar o amor com que nasce.


Defeito ou virtude?


A verdade é que se tal não acontece é porque evoluímos e aprendemos a proteger o nosso interior. Aquela miscelânea de tecido mole, líquidos, algum osso, talvez uma porção de um espírito.


A dor que dizem ser do coração é na realidade da cabeça.
Mas eu quero continuar a acreditar que é do coração.


Porquê?


Acredito em contos de fadas.
Acredito no toque de quem diz sentir.



Ingénuo. Sem dúvida.

Tuesday, August 21, 2007

É favor ass(ass)inar antes de enviar.

As horas passam por mim a correr

Somo-as no cálculo imperfeito da memória

Muitas foram passadas sem grande história

E eu (aqui) sem nada poder fazer.


Levo-as a ti

Cuida delas.